Minha experiência de morar em condomínios de apartamentos.

Aqui no Brasil a gente cresce com o mito da "casa própria". O sonho de toda pessoa. "Abandone o aluguel", dizem. "Seja dono do que é seu". Acontece que há muitas "letras miúdas" nesse "sonho" que ficam de fora do propagado "sonho de todo brasileiro".
Em 2010 fiz a compra do meu apartamento na planta e paguei - com muito custo - os balões do contrato. Depois foi a briga pra atender as exigências do empréstimo da Caixa, mesmo sendo via o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. Foi muita dificuldade e todas as economias "investidas" nesse "sonho". Tão iludido eu era...
Depois de quase três longos anos, entre tretas legais e mil taxas extras que ninguém diz que precisam ser pagas, eu recebi as chaves do apartamento. Ainda demorei alguns meses para me mudar oficialmente, mas depois da mudança os primeiros meses foi só alegria. A tão sonhada independência, liberdade e responsabilidade própria finalmente estavam aqui!
Digo responsabilidade própria porque eu estaria em conta de mim mesmo. De agora em diante não haveria mais ninguém para cuidar de mim ou dividir a casa comigo. Aprendi muito sobre mim mesmo nesse processo e me acostumei com minha presença.

E como tudo na vida é um aprendizado, veio o convívio em (micro) sociedade. Centenas de pessoas diferentes que, do nada, começaram a dividir o mesmo ambiente. A pesar da área comum do meu condomínio ser enorme, com piscinas (adulto e infantil), quadra de esporte, um pequeno fitness, "faixa" de cooper (longa história), muita área verde e muita burocracia interna.
Já tinha ouvido falar da famigerada "assembleia de condomínio", mas nunca havia comparecido a uma até vir morar em condomínio. E é o tipo de coisa que tem hora pra começar, mas não para terminar. São tantas pessoas com interesses diversos e opiniões diferentes que nunca houve uma opinião dominante nas assembleias, e olha que nem 10% dos moradores comparecem! Depois de fazer parte de algumas eu entendi o porquê. É muita briga e pouco resultado.

Entretanto a coisa que mais me estressa depois de mais de dez anos morando aqui são as limitações impostas pelo condomínio e o próprio limite físico do imóvel. Os apartamentos de hoje, principalmente os "populares" como este, são feitos para não serem vividos e sim "dormidos". São verdadeiras caixas de sapatos (aqui, no mínimo 44m² e no máximo 68m²), aparentemente projetados para se dormir e sair pra trabalhar. Ou como uma vizinha já comentou certa vez, "puleiros". Muita gente "amontoada" em um espaço "confiado", limitados por regras rígidas e pessoas que inventam regras da cabeça pra impôr multas. A velha cultura brasileira de punir primeiro e educar jamais (sempre tirando um trocado no processo).
Com o tempo percebi que estava morando em um pequeno "país" ditatorial privado, regido por pessoas sem muita noção, algumas vendo o valor recebido pelas taxas condominiais e desviando, contratando parentes para serviços, falsificando ou adulterando documentos fiscais da empresa (todo condomínio possui um CNPJ), entre outras atividades que nem imagino e só descobrimos na troca de gestão.
Parece muito com o que acontece em Brasília.

E com o Grande Evento de 2020 foi que a coisa se mostrou ainda mais distópica!
Era proibido deixar calçados na entrada dos apartamentos, pegar elevador sem máscara, tudo sujeito a multa condominial. Sem falar nos próprios moradores, enlouquecidos na paranoia, apontando o dedo pra você se você estivesse pegando sol sem máscara, entrando no elevador sem máscara, saindo na área comum sem máscara, etc. Tudo ameaçado de multas. Esse foi o grande divisor de águas pra mim.
Depois disso comecei a perceber as outras desvantagens de morar em apartamento. Não se pode fazer o que se quer, instalar um ar condicionado diferente, colocar películas fumês nas janelas (sujeito a multa), secar roupa grandes na varanda (colcha de cama, redes, etc).
A única vantagem que vejo é a segurança que morar em quantidade proporciona. Porque até a segurança privada pode ser contratada para quem mora em casa. E com o que já paguei de taxa de condomínio nos últimos anos poderia estar pagando uma segurança privada, morando em uma casa com quintal, poder fazer a reforma que quisesse, instalar quantos aparelhos de ar condicionado que precisasse, inclusive usar painéis solares e internet da Starlink.
Claro que há desvantagens em se morar em casa, se corre muito mais riscos, não há quem receba encomendas caso você esteja fora, dependendo do bairro pode ser mais ou menos arriscado ou visado por criminosos, pode ser distante e não ter serviços próximos como mercadinhos, farmácias, cabeleireiros, academias, etc.
Mas ao meu ver, depois dessa experiência de morar em apartamento, há mais vantagens do que desvantagens em se morar em casa. Afinal foi uma vida inteira morando em casa e pouco mais de dez anos morando em apartamento para ver que - no meu caso - apartamento não te proporciona a liberdade que uma casa tem. Apartamento proporciona mais segurança, em termos. Porque hoje em dia até esse "mito" está se desmanchando frente o crescente aumento da violência no Brasil.
Tags: vida, simplicidade, experiência